O livro dos amores Risíveis #1

quinta-feira, maio 24, 2012


Ela sempre enrubescia por antecipação diante da ideia de que iria enrubescer. Muitas vezes desejava sentir-se livre, despreocupada, à vontade em seu próprio corpo, como sabia que era a maioria das mulheres com que convivia. Até mesmo inventara para seu uso próprio, um método original de autopersuasão: repetia para si mesma que todo ser humano recebe ao nascer um corpo entre milhões de outros corpos prontos para o uso, como se lhe fosse atribuída morada semelhante a milhões de outras num imenso prédio;  (...) Esse dualismo da alma e do corpo lhe era estranho. Ela se confundia muito com seu corpo para não senti-lo com angústia.  - Amores Risíveis, Milan Kundera. Pág. 73

Lembro que das vezes que mais me enxerguei nos livros de Kundera, foram os momentos em que ele falava da estranheza do corpo e da alma, esse dualismo inquietante. Assim como a moça que enrubesce só de pensar que vai enrubescer, eu choro só de pensar que vou chorar na frente de alguém. 

Durante uma das aula na faculdade, mexendo no celular, me assustei quando a professora disse "Alana, guarda esse celular", que nem se faz com menino de quinta série. Na hora, senti que tinha virado um tomate e que a sala inteira tava me olhando.  Foi coisa da minha cabeça, eu sei. Meus olhos encheram de lágrimas e eu queria sair dali. Mas foi algo tão bobo, eu sabia que era bobo. 

Nessas horas me pego pensando nas outras mulheres, naquelas que parecem ser tão confiantes e cheias de si, que não sentem essa estranha dualidade entre o corpo e a alma, que se sentem bem dentro do que lhes foi dado, o corpo. Entenda, não estou falando de não gostar do meu corpo, estou falando de estranha-lo. Eu ando torto, não sempre. Parece que a minha alma me olha de fora e ri. E quando converso com alguém, a timidez toma conta e começa o teatro do vamos-fingir-que-sou-descolada-e-converso-com-você-como-se-não-me-importasse-com-nada. 

 Talvez por isso eu goste de tirar fotos de costas, de partes de mim, talvez. Talvez por isso eu goste de enfeitar meu corpo, meus cabelos, pernas e rosto. Talvez eu saiba que não existe ninguém cem por cento confiante, por dentro todo mundo é um pouco igual. Talvez o meu diferencial seja externar esses sentimentos e admitir que me estranho e ainda assim convivo comigo mesma. 

Essa angústia do corpo é quebrada quando encontro alguém que consegue conviver com meu corpo e a minha alma, ao mesmo tempo, sem distinguir os dois.  Posso ser o que sou, dentro do que me foi dado. 



Esse texto foi quase que um Meu Querido Diário. Esse é um dos três livros que estou lendo, Amores Risíveis, de Milan Kundera. É um livro de contos e a frase entre aspas no início do post faz parte do terceiro conto, até agora, o meu preferido. 

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5 comentários

  1. Muuuuuuito show isso, arrasou nas palavras.
    '...e admitir que me estranho e ainda assim convivo comigo mesma...'

    Parabéns! Esses post um dos melhores.
    :*

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  2. As vezes me cai a ficha da vida, como se eu já não soubesse. Isso é bom e ruim, porque mil anos depois você ainda pode surpreender-se com coisas cotidianas, suas, ou se decepcionar com elas. Sempre vem aquele sentimento estranho de '' Nossa, essa sou eu''

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  3. Eu já fui bastante tímida, mas com o tempo fui perdendo isso, mas por outro lado fiquei mais sentimental. Já chorei até na rua, por não aguentar certas situações (sempre de trabalho), mas já chorei na frente dos outros, muita vergonha de lembrar, mas aconteceu. Prefiro ser assim do que camuflar meus sentimentos, ninguém é 100% confiante, acho que sempre bate alguma insegurança em todo mundo.
    bjoks

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  4. "Ela sempre enrubescia por antecipação diante da ideia de que iria enrubescer."
    Li esse trecho num blog certa vez, mas não havia referência ao Kundera. Foi como uma descrição de mim mesma.

    Com passos lentos, pouco a pouco tenho aprendido a ofuscar a timidez. Mas ainda peno uns bocados pra conseguir ganhar a confiança suficiente diante de totais desconhecidos.
    Ainda não sei lidar com as estranhezas que vejo em mim, e a ideia de tentar foi um dos primeiros textos que lancei no blog. Tão frustrante que fiz questão de desaparecer com ele.

    Quando encontramos esse "alguém que consegue conviver com nosso corpo e a alma, ao mesmo tempo, sem distinguir os dois" começamos a nos enxergar por outros olhos, e a estranheza até ganha certa beleza.

    Preciso mesmo ler Kundera.

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  5. Quero um livro desse cara aí! Vô catar na locadora de livros aqui do prédio do meu trabalho!

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